Águas medicinais: o que a ciência revela sobre suas propriedades e benefícios à saúde
Utilizadas há milhares de anos, as águas minerais de fontes naturais continuam despertando o interesse da medicina e da pesquisa científica. Estudos investigam seus possíveis efeitos sobre o organismo e os limites de suas aplicações terapêuticas.
A relação histórica entre a água e a saúde
Desde a Antiguidade, diferentes civilizações utilizam fontes de águas minerais e termais em práticas relacionadas à saúde, ao relaxamento e ao bem-estar.
Gregos e romanos desenvolveram tradições de banhos termais, enquanto diversas culturas passaram a atribuir propriedades especiais às águas provenientes de determinadas fontes naturais.
Atualmente, essas práticas continuam presentes em diferentes países, inclusive no Brasil, onde cidades conhecidas por suas fontes minerais atraem visitantes interessados em turismo, descanso e tratamentos complementares.
Mas existe uma pergunta importante: as chamadas águas medicinais realmente apresentam benefícios comprovados pela ciência?
A resposta depende da composição da água, da forma de utilização e da condição de saúde investigada.
O que são águas medicinais?
A expressão águas medicinais é tradicionalmente utilizada para descrever águas minerais naturais às quais são atribuídas propriedades terapêuticas.
No Brasil, o Código de Águas Minerais, estabelecido pelo Decreto-Lei nº 7.841/1945, considera características químicas, físicas e físico-químicas na classificação dessas águas.
Sua composição depende das condições geológicas das regiões por onde circulam.
Durante o percurso subterrâneo, a água pode entrar em contato com diferentes rochas e incorporar substâncias minerais dissolvidas.
Entre os componentes encontrados em determinadas fontes estão:
Cálcio.
Magnésio.
Bicarbonatos.
Sulfatos.
Sódio.
Compostos de enxofre.
A concentração dessas substâncias varia de uma fonte para outra.
É importante destacar que a classificação legal de uma água mineral não significa que todos os benefícios terapêuticos historicamente atribuídos a ela tenham sido comprovados por estudos clínicos modernos.
Como surgem as propriedades das águas minerais?
A composição mineral da água está diretamente relacionada aos processos naturais que acontecem abaixo da superfície terrestre.
A água da chuva pode infiltrar-se no solo, atravessar camadas geológicas e permanecer armazenada em reservatórios subterrâneos.
Durante esse processo, ocorrem interações físicas e químicas entre a água e os minerais presentes nas rochas.
Essas interações podem modificar características como:
Composição química.
Temperatura.
Acidez ou alcalinidade.
Quantidade de minerais dissolvidos.
Presença de gases naturais.
Algumas águas emergem naturalmente aquecidas devido às condições geotérmicas do subsolo.
Essas são conhecidas como águas termais.
Entretanto, nem toda água mineral é termal, assim como nem toda água termal possui propriedades terapêuticas clinicamente demonstradas.
O que é balneoterapia?
A balneoterapia consiste na utilização de banhos e outras técnicas de imersão em água, frequentemente mineral ou termal, com objetivos relacionados à saúde.
Essas práticas podem envolver piscinas termais, banheiras e tratamentos supervisionados.
Existe também a crenoterapia, expressão utilizada para descrever o emprego de águas minerais com finalidade terapêutica, inclusive em aplicações que não envolvem imersão.
No Brasil, o termalismo social e a crenoterapia integram o campo das práticas integrativas e complementares em saúde.
Essas abordagens são consideradas complementares e não substituem tratamentos médicos estabelecidos.
O que dizem as pesquisas científicas?
Uma revisão abrangente publicada em 2021, que reuniu resultados de 49 revisões científicas, identificou evidências de possíveis benefícios de tratamentos termais para determinadas condições musculoesqueléticas.
Entre as situações estudadas estão osteoartrite, fibromialgia e algumas formas de dor lombar.
Os pesquisadores também encontraram resultados promissores para determinadas doenças inflamatórias da pele e insuficiência venosa crônica.
Entretanto, ressaltaram limitações metodológicas e a necessidade de novos estudos clínicos.
Outra revisão sistemática, publicada em 2024, examinou pesquisas sobre banhos com águas minerais termais em doenças dermatológicas.
Os resultados indicaram melhora de determinados sinais e sintomas em participantes com psoríase e dermatite atópica.
Apesar disso, os autores destacaram que a quantidade e a qualidade dos estudos disponíveis ainda não permitem conclusões definitivas sobre a eficácia desses tratamentos.
Portanto, existem evidências de possíveis benefícios em situações específicas, mas não há fundamento científico para afirmar que águas medicinais curam doenças de maneira geral.
Por que os banhos termais podem proporcionar alívio?
Os efeitos observados em tratamentos com águas termais podem estar relacionados a diferentes fatores.
A temperatura da água pode favorecer o relaxamento muscular e influenciar temporariamente a percepção da dor.
A flutuação reduz a carga sobre determinadas articulações, enquanto a pressão hidrostática produz efeitos físicos sobre o corpo durante a imersão.
A composição mineral também é investigada como possível fator adicional.
Entretanto, ainda existem dúvidas sobre quanto dos benefícios observados decorre especificamente dos minerais e quanto está associado à temperatura, à imersão, ao repouso e ao ambiente de tratamento.
Essa distinção é importante para compreender os resultados científicos.
Beber água mineral também pode trazer benefícios?
A água é essencial para o funcionamento do organismo.
A hidratação adequada participa de processos como regulação da temperatura corporal, transporte de substâncias e manutenção do equilíbrio de fluidos.
Águas minerais também podem fornecer pequenas ou relevantes quantidades de determinados minerais, dependendo de sua composição e do volume consumido.
No entanto, a presença de minerais não transforma automaticamente uma água em tratamento para doenças.
Além disso, algumas fontes podem apresentar concentrações de substâncias que exigem atenção em situações específicas de saúde.
Pessoas com restrições de sódio, doenças renais ou outras condições clínicas devem considerar a composição da água e as orientações dos profissionais responsáveis por seu acompanhamento.
Água própria para consumo e água indicada para procedimentos terapêuticos não são necessariamente a mesma coisa.
O Brasil e a tradição das águas minerais
O território brasileiro possui diversas regiões reconhecidas por suas fontes minerais e termais.
Entre os destinos historicamente associados a essa tradição estão:
Caxambu (MG): conhecida por suas fontes de diferentes composições minerais.
São Lourenço (MG): integrante do tradicional Circuito das Águas mineiro.
Caldas Novas (GO): reconhecida por suas águas naturalmente aquecidas.
Poços de Caldas (MG): cidade com longa tradição em termalismo e turismo.
Esses locais representam parte da relação histórica entre recursos hídricos, turismo e bem-estar no país.
As características e eventuais aplicações terapêuticas precisam ser avaliadas individualmente, conforme cada fonte e estabelecimento.
A tecnologia está ampliando o conhecimento sobre as águas naturais
O desenvolvimento de técnicas analíticas permite identificar com maior precisão a composição química e microbiológica das águas minerais.
Equipamentos laboratoriais conseguem medir concentrações de diferentes elementos, enquanto métodos hidrogeológicos ajudam a compreender a origem, a circulação e a proteção das fontes.
Na pesquisa médica, estudos clínicos procuram avaliar os resultados de tratamentos realizados com águas minerais e termais.
Esses avanços contribuem para separar tradições históricas, hipóteses científicas e benefícios efetivamente demonstrados.
Também permitem estabelecer melhores critérios de segurança e utilização.
Cuidados importantes
Embora os banhos termais sejam frequentemente associados ao relaxamento, sua utilização não é adequada para todas as pessoas ou situações.
Temperaturas elevadas podem representar riscos, especialmente para indivíduos com determinadas condições cardiovasculares, alterações de pressão arterial ou dificuldades de regulação térmica.
A ingestão de águas de fontes naturais também exige confirmação de potabilidade.
A água aparentemente cristalina não é necessariamente segura para beber.
Tratamentos termais devem respeitar as contraindicações individuais e, quando utilizados com finalidade terapêutica, contar com orientação profissional.
Conclusão
As águas medicinais representam um encontro entre história, geologia, saúde e tecnologia.
Sua composição mineral é resultado de processos naturais que acontecem durante a circulação da água pelo subsolo.
Pesquisas científicas apontam possíveis benefícios de determinadas práticas termais como complemento ao cuidado de algumas condições de saúde, mas ainda existem limitações importantes nas evidências disponíveis.
Com o avanço da pesquisa, será possível compreender melhor quais aplicações são realmente eficazes, para quem são indicadas e em quais circunstâncias devem ser evitadas.
Mais do que uma tradição milenar, o estudo das águas medicinais mostra como a natureza continua oferecendo perguntas importantes à ciência.
Fontes e referências
Serviço Geológico do Brasil (SGB)Definição e Classificação Brasileiras.https://www.sgb.gov.br/definicao-e-classificacao-brasileiras
Agência Nacional de Mineração (ANM)Água Mineral — Perguntas Frequentes.https://www.gov.br/anm/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/agua-mineral/
Clinical efficacy of medical hydrology: an umbrella review (2021)Revisão científica sobre aplicações terapêuticas da hidrologia médica.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33866427/
Balneotherapy using thermal mineral water baths and dermatological diseases: a systematic review (2024)Revisão sobre banhos termais e doenças dermatológicas.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38530467/
BMJ Open (2025)Efficacy and safety of balneotherapy in rheumatology: a systematic review and meta-analysis.https://doi.org/10.1136/bmjopen-2024-089597



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